Sobre o descaso das marcas de cosméticos brasileiras com consumidores vegans

abril 07, 2015

Eu demorei muito tempo para decidir se publicava isso ou não. Mas acho que tem que ser falado.
Desde 2013 tenho entrado em contato com os SACs de marcas que não testam em animais para saber sobre a composição dos produtos. O objetivo disso é descobrir quais produtos dessas marcas que são isentos de matérias-prima de origem animal, ou seja, os produtos veganos. Mas essa não tem sido uma tarefa fácil.

O que acontece é principalmente respostas incompletas, respostas que não condizem com o que foi questionado e respostas que faltam com a verdade.

Antes de mais nada, gostaria de falar que é direito do consumidor saber exatamente o que está consumindo.
Segundo o artigo 6º, inciso III, do Código de Defesa do Consumidor:

"CAPÍTULO III
Dos Direitos Básicos do Consumidor

Art. 6º São direitos básicos do consumidor:

III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre os riscos que apresentem; (Redação dada pela Lei nº 12.741, de 2012)" 

Vou mostrar os principais casos:

Elke (grupo Nasha):

Informam que não contém nenhum ingrediente/matéria-prima de origem animal na composição dos seus produtos, mas na prática não é isso que acontece.

Clique na foto para ampliar.


Fui informada tanto no e-mail de 2013 que eu mandei para eles quanto nas newsletter de 2014 da marca que não são utilizadas matérias primas de origem animal nos produtos. Mas me deparei com alguns produtos da marca num supermercado daqui de Mossoró e resolvi olhar a composição. De cara achei vários produtos com cera de abelha (que pode aparece como beeswax ou cera alba), e corante cochonilha (CI 75470).
Tem outros ingredientes que podem ser de origem animal, vegetal ou sintética, mas como o SAC não respondeu meus últimos e-mail e consequentemente não tenho como saber a origem, não vou citá-los aqui.

Fotos:

Batom Elke Efeito Matte com Cera Alba (cera de abelha). Clique na foto para ampliar.

Batom Elke Extra Brilho com Cera Alba (cera de abelha). Clique na foto para ampliar. 


Sombra unitária Elke com CI 75470 (corante carmim/cochonilha). Clique na foto para ampliar.

É claro que novamente tentei contato com a marca, mas não obtive nenhuma resposta. Primeiro mandei um e-mail em 27/09/2014 querendo só informações sobre os ingredientes dos produtos, mas eles não responderam.
Esperei 2 meses, e em 11/11/2014 mandei um e-mail novamente questionando o porquê deles não me responderem e informando que eu tinha fotos que mostravam os ingredientes de origem animal nos produtos da Elke. Como era de se esperar, o SAC não respondeu.

Clique na foto para ampliar.

Para ver as newsletter em que a marca afimar não utilizar ingredientes nem matérias-primas de origem animal clique aqui e aqui
(A marca ainda continua mandando essas newsletter. Os prints são mais antigos porque faz muito tempo que eu venho tentando escrever o post.)


Mandar newsletter informando que a marca não utiliza ingredientes e/ou matérias-primas de origem animal, sendo que na verdade usa, é publicidade enganosa.

O art. 37 do Código de Defesa do Consumidor proíbe e conceitua a publicidade enganosa.

"Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.

§ 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços."

Há pouco tempo ainda vi um pincel com cerdas de pelo de cabra dessa mesma marca. Tirei uma foto pra mostrar, mas saiu tremida e não dá pra ler claramente o nome.

Mahogany:

No dia 26/01/2015 mandei, novamente, um e-mail padrão para várias marcas, incluindo a Mahogany e demais marcas citadas nesse post (com excessão das marcas do grupo Nasha e Essenze di Pozzi) com a seguinte mensagem:

Olá, bom dia.

Me chamo Melissa e sou autora do blog Maquiando Sem Crueldade que aborda os cosméticos cruelty-free e vegan (ou seja, não testados em animais e sem ingredientes de origem animal).
Eu sei que a marca não realiza testes em animais e por isso gostaria de fazer algumas perguntas.
A minha intenção é divulgar os produtos que são isentos de ingredientes de origem animal para facilitar a vida das pessoas veganas na hora de comprar seus cosméticos.
As respostas serão divulgadas no endereço http://maquiandosemcrueldade.com e os produtos irão fazer parte da minha lista de produtos veganos.

1. A empresa utiliza ingredientes/matérias primas de origem animal? Caso sim, quais são eles? (Ex.: ceras de abelha, lanolina, corante cochonilha/CI 75470, entre outros)
2. Quais os produtos são isentos destes ingredientes? (Você poderia responder em forma de lista com os produtos com seus respectivos ingredientes?)
3. A empresa tem intenções de substituir as matérias primas de origem animal por alguma outra de origem vegetal ou sintética?

Aguardo resposta.
Grata desde já.

Melissa Vieira,
Maquiando sem crueldade.

E a resposta da Mahogany foi que além de não testarem em animais, também não utilizam nenhum ingrediente de origem animal e que estes foram substituídos por ingredientes sintéticos.

Mas fazendo uma breve pesquisa no site da marca, pude constatar que no batom da sua linha de maquiagem contém Cera de Abelha.

Batom Hidratante Mahogany com Cera de Abelha.  Captura de tela do site da marca. Clique na foto para ampliar.

Mandei e-mail questionando o porquê no site consta que o batom tem cera de abelha se o SAC informa que os produtos de origem animal foram substituídos por sintéticos, mas até agora, nenhuma resposta foi dada.

E-mails trocados com a Mahogany. Clique na foto para ampliar.

Essenze di Pozzi:

Esse é um caso de 2013 e que me fez perder a esperança nessa marca, mas ainda assim mandei um novo e-mail esse ano - ainda estou esperando resposta. 
Na troca de e-mails de 2013, a marca afirmou não utilizar nenhum ingrediente de origem animal nos produtos, porém numa breve pesquisa na loja virtual da marca, vi que os batons contêm Lanolina, que é uma emulsão de gordura de lã.

Batom Essenze di Pozzi com Lanolina. Captura de tela do site da marca. Clique na foto para aumentar.

Quando questionei a marca sobre isso e perguntei mais uma vez sobre os produtos isentos de ingredientes de origem animal, o SAC subestimando o meu conhecimento, me manda uma descrição do que é Lanolina da wikipedia, que nem fonte científica é, e mais uma não responde o que foi questionado

E-mails trocados com a Essenze di Pozzi. Clique na foto para ampliar. Se não conseguir ver direito, clique aqui


Cia Stampa (Natural Line e Colombina), Flores e Vegetais e Beauty Color (grupo Bonyplus):

Os SACs das respectivas marcas sequer se dispuseram a ler os e-mails enviados, dando uma resposta totalmente "automática" como se eu estive a procura de parceria, quando na verdade os e-mails eram a respeito da composição dos produtos.
Depois das "respostas" deles, eu mandei um e-mail para cada uma das marcas destacando os questionamentos e nenhuma delas respondeu mais, mostrando a falta de interesse da marca em atender as necessidades do consumidor. Clique para ver o e-mail da Cia Stampa aqui, o da Flores e Vegetais aqui e o da Beauty Color aqui.
Para todas as três marcas, mandei novamente e-mail perguntando se já tinham respostas para as perguntas que eu fiz e até a publicação desse post, só a Beauty Color respondeu (veja aqui). 


Niely:

O SAC da marca diz que não dá informações além das que estão no site. Isso dificulta muito o acesso a informação já que o site não informa a composição de cada produtos. E mesmo que viesse a possuir, ainda assim tem ingredientes que só dariam para saber a origem deles (se é animal, vegetal ou sintética) através do SAC. Clique aqui para ver o e-mail. 


Ainda é muito difícil conseguir informações corretas com os SAC das marcas brasileiras. A gente acaba tendo que insistir muito para conseguir alguma informação - que muitas vezes vem distorcida - e isso acaba sendo muito cansativo. Talvez isso aconteça por esse ser um assunto relativamente novo e as empresas ainda não saber como lidar, mas fica clara a falta de preparo dos atendentes dos SAC (não estou culpando os funcionários, mas as empresas que não costumam investir nesse setor nem preparar os funcionários para esclarecerem as dúvidas dos clientes). De qualquer forma, as empresas tem que se adequar porque é nosso direito saber exatamente o que estamos consumindo e ter qualquer dúvida quanto a isso esclarecida. E eu espero que isso aconteça o mais breve possível.  

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